Você já deve ter visto isso de perto. Uma proposta mais simples que a sua, de um concorrente que você sabe que entrega menos, fecha contrato antes da sua. A causa raramente é falta de qualidade técnica. Quem está comprando o que você faz quase nunca sabe avaliar tecnicamente o seu trabalho, e decide por outra coisa, o quanto entendeu do que você faz. Isso tem nome. Chama-se posicionamento.

Também não é prometer ao cliente algo que o seu trabalho não vai entregar, só para fechar contrato mais rápido. Clareza sobre o que você resolve não é sinônimo de dizer sim para qualquer pedido. É dizer, com precisão, para quem o seu trabalho serve bem, o que também afasta quem nunca ficaria satisfeito com o resultado.

Existe ainda uma terceira situação, mais rara. Você recebe contrato suficiente, mas do tipo errado. Cliente que pechincha o valor todo, que não entende o processo, que compara com um serviço malfeito de um conhecido, sem nenhum profissional envolvido. Isso também é sintoma de posicionamento pouco claro, só que na direção contrária. Atrai volume, mas não atrai quem valoriza o que você realmente entrega.

Por que a técnica não decide sozinha

Você mostra uma solução mais elaborada, algo que o cliente nem imaginava ser possível, e mesmo assim ele fecha com quem apresentou uma proposta mais simples, explicada em termos que ele entendeu de primeira.

Um cliente que nunca estudou o que você estudou não consegue avaliar se a sua solução é tecnicamente melhor que a do concorrente. Ele avalia o que consegue entender. Se a proposta faz sentido para o jeito como ele vive ou trabalha, se o preço foi explicado antes de ele perguntar, se a reunião de apresentação resolveu a dúvida dele ou só mostrou algo bonito.

Isso é a mesma lógica de qualquer decisão sobre algo que a pessoa não domina. Ela escolhe pelo que consegue avaliar, não pelo que é tecnicamente melhor.

Reclamar do critério não muda o resultado. Entender o critério muda.

Por que isso não aparece na formação

A formação técnica ensina a fazer o trabalho, a dominar a técnica, a resolver o problema do jeito certo. Não ensina a explicar, para alguém que nunca estudou nada disso, por que uma solução específica resolve o problema daquela pessoa específica.

O vácuo não é exclusivo de nenhuma área. Cursos técnicos de qualquer profissão formam quem sabe fazer, não necessariamente quem sabe dizer por que aquilo importa para quem está do outro lado.

O resultado é um profissional tecnicamente sólido chegando ao mercado sem nunca ter pensado em como explicar o próprio valor para quem não tem vocabulário técnico nenhum.

O que o cliente está realmente comparando

Enquanto você compara portfólio com portfólio, o cliente está comparando outra coisa. Qual dos dois pareceu entender o problema dele primeiro. Não o problema genérico de precisar do serviço. O problema específico da vida dele, ou do negócio dele, do jeito como ele vive ou trabalha.

Uma solução tecnicamente mais simples que explica isso com clareza vence, na maioria das vezes, uma solução mais sofisticada que não explica nada. Marketing sem posicionamento nunca funcionou, e isso ajuda a entender por que a técnica sozinha não fecha contrato. Este texto trata da direção que vem antes da tática.

O reframe que muda a pergunta

O conselho que mais circula entre profissionais recém-formados é publicar mais, mostrar mais trabalho pronto, aparecer mais. É um conselho tático, e resolve metade de um problema que tem duas partes.

A parte tática é aparecer. A parte que quase nunca é dita é a direção, aparecer para quem, resolvendo qual problema, de que jeito diferente do escritório ao lado. Sem essa segunda parte, mais fotos de projeto só produzem mais gente vendo um perfil que não diz nada sobre para quem ele serve.

Quem segue esse conselho não está errado. O problema mora no próprio conselho, que ensina o volume e esquece a direção. É o ponto de partida de qualquer trabalho de posicionamento comercial que realmente funciona.

O sinal mais claro de que o problema é posicionamento

Colegas de profissão elogiam o seu trabalho. Você ganha prêmio de vez em quando, ou pelo menos reconhecimento informal entre pares. Mesmo assim, o telefone não toca na proporção que a qualidade do trabalho sugeriria.

Esse descompasso entre reconhecimento técnico e volume de contrato aponta, na maioria das vezes, para posicionamento e não para competência. Quando prêmio e contrato caem juntos, o problema tende a ser outro, e vale investigar por um caminho diferente.

Pergunta que a tática respondePergunta que o posicionamento responde
O que eu posto essa semana?Para quem eu trabalho, de verdade?
Quantas fotos do meu trabalho eu tenho?Que problema específico eu resolvo melhor que o concorrente ao lado?
Como eu pareço mais profissional?Por que alguém deveria me escolher em vez do outro nome da lista?

O preço entra na mesma conta

Preço sem explicação funciona como um segundo teste de comunicação, não só de orçamento. Um valor apresentado sem contexto parece alto ou baixo dependendo só da reação imediata do cliente. O mesmo valor, explicado a partir do que está incluído e do que aquilo evita de retrabalho, muda de categoria na cabeça de quem está decidindo.

Isso não substitui o trabalho detalhado de definir o próprio preço, que é assunto à parte. Serve só para mostrar que preço também é comunicação, e comunicação também é posicionamento.

O que muda quando isso fica claro

Uma empresa posicionada não muda o que apresenta. Muda o que fica claro antes da proposta ou do material técnico aparecerem na tela. Por que aquela solução resolve o problema específico daquele cliente.

Quem entende isso antes avalia o restante da apresentação de um jeito diferente. Já sabe por que está olhando aquilo, e para de comparar proposta solta com proposta solta.

Um jeito de perceber isso na prática

Peça para três pessoas de fora do seu círculo profissional olharem seu portfólio e dizerem, numa frase, o que elas acham que você faz de melhor. Se as três respostas forem parecidas com o que você diria sobre si mesma, o posicionamento já está claro.

Se forem todas diferentes entre si, ou vagas demais, é sinal de que falta clareza antes de faltar visibilidade. Google Meu Negócio para arquiteto resolve a parte de ser encontrado. Ser escolhido depois de encontrado é a conversa deste texto.

Vale para escritório grande ou só para quem está começando

Negócios grandes e consolidados enfrentam a mesma pergunta em outra escala. Uma empresa com equipe e portfólio extenso pode competir só pelo próprio nome por um tempo, mas mesmo esse nome só significa alguma coisa para quem já entendeu o que aquela empresa faz melhor que as outras.

Quem está começando sente o problema mais cedo, porque ainda não tem histórico para compensar a falta de clareza. Isso pesa mais cedo, e por isso vale resolver a direção antes de escalar o volume de trabalho, não depois.

O que isso não é

Não é abandonar a técnica, nem fingir competência que você não tem. Um negócio sem qualidade técnica não se sustenta só com clareza de comunicação. A questão inteira só aparece depois que a técnica já existe, porque é depois que a técnica está garantida que o critério de escolha do cliente passa a ser outra coisa.

Perguntas frequentes

Por que uma proposta mais simples que a minha fecha contrato antes da minha?

Porque quem contrata raramente consegue avaliar a qualidade técnica de um trabalho com precisão. A decisão se apoia no que a pessoa entende, e isso inclui clareza na proposta, no preço explicado e na sensação de ter sido ouvida durante a apresentação, não só o resultado técnico final.

Ser tecnicamente bom não é suficiente para ter mais clientes?

Sozinho, raramente é. Competência técnica constrói a reputação de longo prazo entre pares e mantém o trabalho sustentável ao longo dos anos, mas quem decide contratar no curto prazo compara outra coisa, principalmente o quanto entendeu do que cada profissional oferece antes de assinar.

O que é posicionamento para quem presta um serviço técnico?

É a clareza sobre para quem você trabalha e qual problema específico você resolve melhor que a concorrência. Sem essa clareza, dois profissionais com qualidade técnica parecida acabam competindo só por preço, porque não sobra nenhum outro critério para o cliente usar na comparação.

Como saber se o problema é competência técnica ou comunicação?

Compare as duas fontes de reconhecimento. Se colegas de profissão elogiam seu trabalho, mas o telefone não toca na mesma proporção, o problema raramente é técnico. Quando prêmio, elogio de pares e volume de contrato andam desalinhados, a causa está, na maioria das vezes, em como o trabalho é comunicado, não em como ele é feito.

Isso significa que eu preciso mudar meu jeito de trabalhar?

Não. Posicionamento é sobre comunicação e escolha de foco, não sobre mudar como você entrega o trabalho. A técnica continua sendo a base do que você faz. O que muda é o que fica claro para o cliente antes de ele ver o resultado final.

Por Priscila Falchi – Consultoria de Marketing e fundadora da Modernizza Marketing Digital