Perder um cliente corporativo custa muito mais do que parece, porque a conta não é só o contrato que saiu: é o tempo de venda que vai ter que ser refeito com outro. E a causa quase nunca é preço, é a sensação de estar sozinho depois de assinar. Vou mostrar onde essa relação se rompe e o que costuma segurá-la.

Para quem atua nas áreas de Marketing e Vendas é claro o conceito de que é mais caro adquirir um novo cliente do que manter os clientes que já possuem. A retenção de clientes B2B é, inclusive, um dos temas cobertos pelas orientações do SEBRAE para pequenas e médias empresas. A retenção de clientes é fator de grande importância para empresas de quaisquer segmentos, principalmente para as de B2B. Nas empresas de B2B esse desafio é ainda maior, uma vez que o processo de vendas corporativas pode levar muito tempo, com longos prazos de negociações e altos custos. Pela dificuldade de adquirir novos clientes é primordial mantê-los por mais tempo possível, sendo que conquistar sua lealdade e a fidelidade  é o principal meio para retê-los.

O conceito de lealdade e fidelidade para muitos é o mesmo, porém, acredito que o termo lealdade, está mais ligado a um sentimento de sinceridade e com valores emocionais. Enquanto que a fidelidade está relacionada a um compromisso e cumprimento de princípios morais.

Para exemplificar o que estou dizendo, imagine que um cliente esteja utilizando o seu produto ou serviço. Ele é fiel ao que ambas as empresas têm acordado. No entanto, ele pode não estar plenamente satisfeito com o seu atendimento, não trocando de fornecedor apenas por força contratual. Este cliente tem fidelidade, mas não lealdade à sua empresa.

O cliente fiel, para mim, é aquele que já está com você há anos e sabe o valor que ele tem para a sua empresa. Por isso, negocia descontos muito maiores a cada renovação de contrato ou exige benefícios e vantagens além dos que você lhe oferece. Já o cliente leal é aquele que valoriza o seu serviço ou produto, acompanha o seu trabalho, aponta os seus erros quando ocorrem e é justo na hora de negociar. Ele usa o seu produto ou serviço, está encantado com o atendimento e lhe indica para outras empresas. Se falarmos no sentido acadêmico, a definição de nível de relacionamento entre empresa e cliente, se dá pelo emprego dos termos Satisfação e Fidelidade.

A satisfação, segundo Philip Kotler, consiste na percepção do desempenho do produto ou serviço comparado às suas expectativas, sendo que quanto maior o sentimento de superação destas expectativas, maior será o grau de satisfação do cliente.

À medida que os clientes se sentem plenamente satisfeitos e encantados, eles tendem a não trocar de fornecedor e a relação ultrapassa os motivos racionais e cria uma experiência de envolvimento emocional, gerando a fidelização. Para Philip Kotler, um dos mais importantes autores de Marketing, clientes satisfeitos ainda trocariam de fornecedor, assim, para conquistar a fidelidade clientes B2B é preciso ir além da mera satisfação, é preciso encantar o cliente.

Por que a perda dói mais no B2B

Em venda para consumidor, perder um cliente é perder uma compra. Em venda corporativa é diferente: o ciclo até fechar levou meses, envolveu várias pessoas, exigiu proposta, reunião e defesa interna. Tudo isso precisa ser refeito do zero com outra empresa.

Na Modernizza, costumamos calcular isso com o cliente logo no começo, e o número sempre incomoda. Quando se soma o tempo comercial gasto até a assinatura, um contrato que dura seis meses raramente se paga. O que torna a operação saudável não é fechar mais, é fazer os contratos durarem.

Existe ainda um efeito que quase ninguém contabiliza: cliente antigo indica, e indicação chega quase decidida. Perder um cliente de três anos é perder também as indicações que ele traria.

Onde a relação se rompe, na prática

Já vi poucos cancelamentos acontecerem por causa de preço, e muitos por causa de silêncio. O cliente contrata, o trabalho começa, e por semanas ele não sabe o que está sendo feito. Nesse vazio, ele preenche sozinho, e quase sempre preenche mal.

Os primeiros noventa dias concentram a maior parte do risco. É o período em que o resultado ainda não apareceu, a decisão de contratar ainda está sendo julgada internamente por quem aprovou, e qualquer dúvida vira arrependimento.

Se você já ouviu de um cliente que ele não sabia direito o que a sua empresa vinha fazendo, esse é o sinal. Não é falta de trabalho, é falta de visibilidade do trabalho, e o efeito comercial é o mesmo.

O que segura cliente corporativo

Quatro coisas aparecem com frequência quando a relação dura.

A primeira é ritmo combinado de comunicação. Não é relatório extenso, é previsibilidade: o cliente saber que toda quinzena vai receber alguma coisa, mesmo quando não houve avanço espetacular.

A segunda é falar do problema antes de o cliente descobrir. Quando algo atrasa ou dá errado, quem avisa primeiro sustenta a confiança. Quem espera ser perguntado a perde de uma vez.

A terceira é mostrar o que foi feito em termos que o cliente possa repassar internamente. A pessoa que contratou você precisa defender essa decisão para o chefe dela, e material que ajuda essa defesa vale mais do que qualquer brinde.

A quarta é revisar o combinado de tempos em tempos. Contrato que não muda em dois anos costuma estar desalinhado do que a empresa precisa hoje, e o cliente sente isso antes de dizer.

O erro de tratar todos os clientes igual

Nem todo cliente merece o mesmo esforço de retenção, e fingir que sim costuma prejudicar os dois lados. Já vi empresa gastar o melhor do tempo com o cliente mais barulhento e perder, por desatenção, o que sustentava o faturamento.

Vale separar em três grupos. Os que respondem por boa parte da receita e da margem, que merecem acompanhamento próximo e revisão frequente do combinado. Os que estão no meio, com potencial de crescer, que precisam de constância e de uma conversa por trimestre sobre o que mais poderia ser feito. E os que consomem mais tempo do que rendem, com quem o caminho honesto é renegociar escopo ou encerrar bem.

Esse terceiro grupo é o que mais se adia. Manter um cliente que dá prejuízo por medo de perder faturamento costuma custar mais caro do que a saída dele, porque ocupa a equipe que deveria estar cuidando dos outros dois.

Retenção não é desconto

Quando o cliente sinaliza saída, a reação mais comum é oferecer desconto. Costumo desaconselhar, por dois motivos.

O primeiro é que desconto resolve o sintoma errado. Se o problema era percepção de valor, baixar o preço confirma que o valor era menor mesmo. O segundo é que ensina o caminho: o cliente aprende que ameaçar sair reduz a fatura, e vai repetir.

O que funciona melhor é entender o que mudou. Às vezes o interlocutor trocou e o novo não conhece o histórico. Às vezes a prioridade da empresa mudou e o serviço deixou de ser urgente. Cada uma dessas tem uma resposta diferente, e nenhuma é preço.

Como medir sem sistema caro

Não é preciso ferramenta para acompanhar isso. Três números, revisados uma vez por mês, já dão a leitura.

Quanto tempo, em média, um cliente permanece. Quantos saíram no período e por qual motivo declarado. E quantos vieram por indicação de cliente atual, que é o melhor termômetro de satisfação real, porque ninguém indica quem não confia.

Uma planilha honesta resolve. O que costuma faltar não é sistema, é o hábito de registrar o motivo da saída no momento em que ela acontece, quando a informação ainda é precisa.

Onde isso encosta na venda

Retenção começa antes do contrato. Cliente que entra com expectativa errada sai cedo, e expectativa errada nasce na venda, quando se promete mais do que se vai entregar para vencer a negociação. As particularidades disso estão em vendas de serviços B2B.

E parte da confiança se constrói antes mesmo da primeira conversa, na presença que a empresa mantém no assunto, o que trata redes sociais e as empresas de serviços B2B.

Quando a promessa da venda e a realidade da entrega não conversam, nenhuma ação de relacionamento segura. Alinhar as duas pontas é o trabalho de uma consultoria em vendas online.

O que muda entre reter no B2B e no varejo

Costumo usar esta comparação porque ela explica por que programa de fidelidade de varejo não funciona em serviço corporativo.

 VarejoServiço para empresa
Quem decide ficarA mesma pessoa que comprouQuem contratou, quem usa e quem aprova o orçamento
Custo de perderUma compraMeses de ciclo comercial a refazer
O que seguraPreço, conveniência, programa de pontosPrevisibilidade e visibilidade do trabalho
Quando o risco é maiorNa próxima compraNos primeiros noventa dias
Melhor sinal de satisfaçãoRecompraIndicação para outra empresa

A terceira linha é a que mais surpreende. Em serviço corporativo, o cliente não fica porque foi agradado, fica porque confia. E confiança se constrói mostrando trabalho, inclusive nas semanas em que o resultado ainda não apareceu.

Perguntas frequentes

Por que reter cliente B2B é mais importante do que no varejo?

Porque o ciclo de venda é longo e caro. Um contrato que dura seis meses raramente paga o tempo comercial gasto até a assinatura. E cliente antigo indica, e indicação chega quase decidida.

Qual é a principal causa de cancelamento?

Silêncio, mais do que preço. O cliente contrata, o trabalho começa e por semanas ele não sabe o que está sendo feito. Nesse vazio ele preenche sozinho, e quase sempre preenche mal.

Qual é o período de maior risco?

Os primeiros noventa dias. O resultado ainda não apareceu, quem aprovou a contratação ainda está julgando a própria decisão, e qualquer dúvida vira arrependimento.

Vale dar desconto para o cliente não sair?

Não costuma valer. Se o problema era percepção de valor, baixar o preço confirma que o valor era menor. E ensina o cliente que ameaçar sair reduz a fatura. O melhor é entender o que mudou, porque quase nunca é preço.

Por Priscila Falchi – Consultoria de Marketing e fundadora da Modernizza Marketing Digital